Perceber que a obra está saindo do orçamento é angustiante. A reação instintiva é procurar mais dinheiro. Mas o primeiro passo correto não é esse: é parar, entender o que está acontecendo e só então decidir.
Obras que estouraram o orçamento geralmente continuaram sendo executadas sem controle por tempo demais antes de alguém perceber. Quanto mais cedo o problema for identificado e endereçado, menor o custo de correção.
Este é um guia de ação para quem está nessa situação agora.
Aviso importante: não tome nenhuma decisão financeira grande antes de completar os passos 1 e 2 deste guia. Buscar mais recursos sem entender a causa do desvio é como tapar um buraco sem saber de onde vem a água.
Passo a passo para retomar o controle
Passo 01
Pare e levante o realizado por etapa
Antes de qualquer decisão, você precisa saber onde o dinheiro foi. Liste cada etapa da obra executada até agora e quanto foi gasto em cada uma. Compare com o que estava previsto no orçamento original.
O objetivo desse levantamento é identificar quais etapas estão dentro do previsto e quais são a fonte do desvio. Na maioria dos casos, dois ou três itens concentram 80% do problema.
Passo 02
Identifique se o desvio é de volume ou de preço
Existem dois tipos de desvio financeiro em obras. O desvio de volume acontece quando se executou mais do que o previsto, seja porque o escopo aumentou ou porque houve desperdício. O desvio de preço acontece quando os insumos custaram mais do que o orçamento previa.
Saber o tipo importa porque a solução é diferente. Desvio de volume exige revisão de escopo. Desvio de preço exige revisão de fornecedores e composições.
Passo 03
Estime o custo para concluir
Com o realizado mapeado, estime quanto vai custar terminar o que resta. Não use o orçamento original como referência para o que falta, pois os preços mudaram e o escopo pode ter mudado. Faça uma nova estimativa do custo a realizar, baseada nos preços atuais do mercado.
Isso vai te dar uma projeção real do custo final da obra, que é a informação que você precisa para tomar as próximas decisões.
Dica prática: ao estimar o custo a realizar, adicione uma margem de 10% sobre sua estimativa. Obras que já apresentaram desvio têm maior probabilidade de continuar apresentando. Seja conservador.
Passo 04
Revise o escopo antes de buscar mais recursos
Antes de injetar mais dinheiro, avalie se há itens no escopo restante que podem ser simplificados, substituídos ou adiados sem comprometer a funcionalidade do projeto.
Substituir um acabamento especificado por um equivalente mais acessível pode reduzir o custo a realizar em 10 a 15% sem impacto perceptível na entrega. Isso é sempre preferível a buscar crédito.
Passo 05
Negocie com fornecedores antes de trocar
Se parte do desvio veio de custo de materiais ou serviços, negocie antes de substituir fornecedores. Mudar no meio da obra tem custo de mobilização, curva de aprendizado e risco de atraso. Uma negociação de 5% com o fornecedor atual pode ser melhor do que a economia aparente de 15% com um fornecedor novo.
Passo 06
Estabeleça um novo baseline e monitore semanalmente
Com o escopo revisado e o custo a realizar estimado, crie um novo orçamento de referência: o novo baseline. A partir daqui, toda semana compare o realizado com esse baseline atualizado.
O monitoramento semanal é o que garante que o problema não se repita no segundo semestre da obra. Desvios identificados semanalmente custam uma fração do que custam quando identificados mensalmente ou no final.
O que não fazer quando a obra está estourando
Tão importante quanto o que fazer é o que evitar. As decisões tomadas sob pressão financeira costumam agravar o problema.
Não reduza qualidade estrutural. Trocar especificação de estrutura, impermeabilização ou instalações críticas para economizar no curto prazo cria custos maiores no longo prazo. Patologias corretivas são muito mais caras do que a especificação correta aplicada na obra.
Não acelere a execução sem planejamento. Pressionar a equipe para recuperar prazo sem reorganizar o sequenciamento gera mais retrabalho e, paradoxalmente, mais atraso.
Não tome decisões sem dados. Toda decisão financeira sobre a obra precisa ser precedida pelos números dos passos 1 e 2 acima. Intuição não basta quando o risco é alto.
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